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Erramos, e agora? O que esperamos de um bom pedido de desculpas de uma organização de esports

Atualizado: Ago 16

Em sua primeira coluna para a LDG, nossa madrinha analisa o comunicado de imprensa do Flamengo Esports


Quem sou eu

Em minha coluna de estreia aqui na LDG, primeiro gostaria de me apresentar: meu nome Lívia R. D. Viana, sou jornalista, especialista em influência digital, conteúdo e estratégia, escritora, roteirista e assessora de imprensa especializada em esports.


Em junho do ano passado, assumi a assessoria de imprensa da Liga NFA, o maior campeonato independente de Free Fire do mundo. Para saber mais do meu trabalho com a NFA, clique aqui - conto no texto como alavancamos em 1800% as publicações sobre o campeonato em 1 ano.


Dito isto, quero dizer que estou muito feliz de ser madrinha do Liga das Garotas. Isso significa que estarei disponível para orientar as meninas do site quanto a seu crescimento e também aparecerei aqui para compartilhar meu conhecimento sobre o mercado de games com nosso público.


E hoje, em meu primeiro texto para o site, quero compartilhar com vocês um pouco dos conhecimentos de gerenciamento de crise que adquiri nessa minha estrada no entretenimento e, principalmente, nos esports.


O anúncio da Cacau no Flamengo

Como muitos já devem ter visto, nesta sexta-feira (13), o Flamengo Esports divulgou um vídeo para anunciar uma nova streamer para sua equipe. O vídeo, que deveria comemorar a entrada de uma mulher super carismática e destacar os pontos fortes de seu trabalho como influenciadora do time, sofreu - e com razão - severas críticas do público.


Vejam alguns comentários:



Além dos closes em partes do corpo na streamer como sua boca e takes dela comendo - o que caracterizara conteúdo de sexualização e fetichização feminina, também foi apontada a apologia ao crime de stalking.


Segundo fontes apuradas pelo LGD, a organização não iria se pronunciar a respeito, pois segundo eles a repercussão negativa só havia acontecido no twitter. Contudo, depois que a polêmica chegou à imprensa, o clube se pronunciou oficialmente em seu twitter.


Um bom pronunciamento de imprensa

Dito isto, para começarmos é preciso deixar claro que um bom comunicado de imprensa, em casos como esse, deve seguir alguns passos:


  • Assumir o erro e mostrar que entendeu a gravidade do ocorrido;

  • Não tentar justificar o injustificável (por exemplo, fazer apologia a um crime);

  • Pedir desculpas pelos danos causados de forma genuína;

  • Mostrar quais medidas serão tomadas para que isso não aconteça novamente;

  • E, dizer tudo isso de maneira clara, rápida e respeitosa.


Vamos analisar juntos como o Flamengo Esports lidou com a situação?


Confira a nota do clube, na íntegra:


"Fala, Nação!


Realizamos ontem o anúncio de uma influenciadora, no qual alguns torcedores repercutiram e interpretaram de forma negativa a proposta do vídeo.


Gostaríamos de deixar claro que nós, somos totalmente contra à qualquer ação indevida contra à mulher.


O vídeo postado, mesmo tendo sido aprovado previamente pela influenciadora, infelizmente, tem um sentido dúbio e iremos nos prontificar à corrigir estes pontos nas próximas linhas de edições.


Ontem era um dia de festa e se tornou um dia de polêmica, sentimos muito por isto e vamos corrigir estes pontos.


Agradecemos o apoio e todas as críticas. Assim crescemos e nos aprimoramos como time e como pessoas."


Agora, bora esmiuçar mais essa nota:


"Alguns torcedores"

Primeiramente, o clube deixa claro que quem interpretou negativamente o vídeo foram alguns de seus torcedores - se eximindo de culpa pela produção:


“Realizamos ontem o anúncio de uma influenciadora, no qual alguns torcedores repercutiram e interpretaram de forma negativa a proposta do vídeo”


Além de colocar a culpa na interpretação, ainda foi frisado que foram ALGUNS torcedores, e não todos. Isso mostra que houve torcedores que gostaram do vídeo… O famoso - desculpa se você se ofendeu. O que, é claro, não repara o erro do ocorrido e nem mostra que houve um entendimento genuíno dos pontos criticados pela torcida.


Além disso, o comunicado não educa a audiência que concordou com o conteúdo. Fazendo o famoso desserviço. Para constarmos isso, é só olharmos alguns dos comentários da matéria do Globo Esporte sobre o ocorrido:




Ações indevidas

Seguimos para o próximo trecho:


“Gostaríamos de deixar claro que nós, somos totalmente contra à qualquer ação indevida contra à mulher.”


Neste parágrafo o comunicado mais uma vez tira a responsabilidade da jogada. Isso mesmo, apesar das críticas, somos contra qualquer ação indevida contra às mulheres.


Aqui, minha recomendação teria sido destacar que o clube não incentiva o crime de stalking e se solidariza com as vítimas de perseguição e pede desculpas pelo desconforto causado àquelas torcedoras que passaram por isso e tiveram que assistir tal produção.


Como foi o caso da Ju:



Aprovado pela Influenciadora

Depois disso no parágrafo seguinte, o clube destaca que o conteúdo foi aprovado pela influenciadora e mesmo assim ficou com um duplo sentido! Que coisa, né?


O vídeo postado, mesmo tendo sido aprovado previamente pela influenciadora, infelizmente, tem um sentido dúbio


Neste caso, faltaram mais uma vez as desculpas da equipe do time por aprovar tal conteúdo. Apesar de ter sido prudente mostrar para a influenciadora o roteiro antes da gravação, como uma nova integrante de um time grande como o Flamengo ela esperaria que o conteúdo tivesse excelência e claro, não iria se indispor com o time que a recém contratou.


Como sabemos, neste tipo de relação o influenciador, jogador ou trabalhador são sempre a parte mais fraca e vulnerável da relação, principalmente quando não estamos falando de grandes nomes, que não contam com equipe própria para assessorá-los. Se a Cacau tivesse um apoio neste âmbito, dificilmente teria aceitado o teor do vídeo - evitando, assim, que a influenciadora fosse relacionada à uma polêmica que poderia ferir sua imagem.


Corrigir estes pontos?

Por fim, a frase termina assim: “e iremos nos prontificar a corrigir estes pontos nas próximas linhas de edições”.


Neste parte, o time nos traz a postura de corrigir esses pontos nas próximas edições - vejam que não escrevem “erro”. Apesar de ser o mínimo esperado, não consideramos, como mulheres que lutamos pela igualdade nos esports que isso seja suficiente.


A organização não fazem menção de tirar o vídeo do ar. O que significa continuar a constranger mulheres que eventualmente assistirão ao conteúdo...


Atualização: o vídeo foi excluído do twitter hoje domingo dia (15/08) pelo time.


E a própria influenciadora, que apesar de ter gostado em um primeiro momento do vídeo, ficou marcada pelo ocorrido e sempre terá o conteúdo lá na página do time para mostrar como ela supostamente foi “conivente” com algo polêmico, machista e até mesmo que faz apologia a um crime.


O que faz com que a culpa pelo erro da organização recaia sobre a influenciadora - uma mulher que deveria ter tido suas aptidões e talentos promovidos ao entrar para uma organização grande porte como o Flamengo, gerenciado pela gigante empresa americana Simplicity.


Agradecimento vazio

Por fim, temos um agradecimento: “Agradecemos o apoio e todas as críticas. Assim crescemos e nos aprimoramos como time e como pessoas”.


O que também soa nebuloso: se a culpa é da influenciadora e de quem interpretou o vídeo errado, esse agradecimento às críticas é vazio. Além disso, no final da nota é demonstrado o desejo de se aprimorarem “como time e pessoas”, mas não foram apontadas as providências para reparar tal erro ou mesmo medidas que serão tomadas pela organização após o ocorrido.


Como promover a diversidade

E aí, vocês me perguntam, Livs o que poderia ser feito? Aqui segue uma pequena e sucinta lista que organizações que querem - e realmente se importam - com a diversidade e o impacto de crises como esta poderiam sugerir como política de reparação de erros como este:


  1. Se comprometer a deixar sua equipe mais diversa, o que diminui a chance que incidentes como este aconteçam;

  2. Promover treinamentos para sua equipe sobre diversidade e questões sensíveis sobre grupos marginalizados socialmente;

  3. Promover uma campanha de conscientização sobre o ocorrido, educando seu público sobre a importância da causa que foi ferida e como podemos evoluir como sociedade com isso.

É preciso dialogar

Por fim, nós também não nos posicionamos a favor da demissão e afastamento da equipe responsável pela produção. Só há mudança através do diálogo e do conhecimento. Nós, mulheres gamers, não estamos em guerra com homens que trabalham no meio - queremos aliados.


Por isso, não adianta trocar a equipe / demitir geral se a cultura da organização e dos tomadores de decisão continua deixando de lado a importância da diversidade e inclusão.


Também destacamos o posicionamento positivo de Lucas Rima, Gerente de Talentos do Flamengo Esports, sobre o ocorrido. Lucas se desculpou com a comunidade e demonstrou apoio à realização de um novo material produzido por mulheres - o que teria sido uma ótima solução para a crise da organização.


Não é sobre culpados

Destacamos também que a culpa, em caso de crise, sempre cairá para a parte mais fraca da relação de negócios, seja a influenciadora que aprovou o vídeo, ou a equipe que produziu, com a autorização da chefia.


Nestas horas, sempre queremos achar um culpado, mas tomar providências para que coisas assim não ocorram mais vai muito além de apenas incriminar: é preciso mudar de postura.


Assumir um compromisso que vai além de contratar mulheres. Falamos também de promover ativamente sua inclusão, não só de mulheres, mas de outros grupos marginalizados por nossa sociedade.


Mas, contratem mulheres!!

Para fechar, deixamos aqui o tweet da apresentadora do @lancaabraba CO criadora @perifacon & @gamerperifa & @copafavela, Andreza Delgado:



Acreditamos em um cenário de esports mais inclusivo e para isso, precisamos da ajuda de todos! Seja você também um aliado. Apoie a LDG.


Até a próxima!


Beijos da Livs



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